1º ano de home office

Funcionários aprovam horários flexíveis, mas reclamam de solidão, dores e expediente sem fim

No susto do início da pandemia, em março de 2020, empresas mandaram seus funcionários para casa às pressas, com medo da contaminação pelo coronavírus.

Foto: Pixabay

No balanço desse primeiro ano de home office, trabalhadores aprovam a flexibilidade de horários, a segurança do lar e o tempo que deixaram de desperdiçar no trânsito. Mas reclamam de solidão, dores no corpo, falta de apoio das empresas e jornadas de trabalho que parecem nunca terminar. Veja relatos.

“Não aguento mais o home office”

Produtora de conteúdo financeiro de uma grande marca de roupas, Fernanda Monteiro, 28, do Rio de Janeiro, diz que não recebeu qualquer auxílio da empresa para trabalhar. Ela conta que, sem receber horas extras, extrapola frequentemente a jornada de trabalho, cumprida na mesa da sala, na companhia de um ventilador.

“Não aguento mais o home office. Começo a trabalhar antes das 10h e vou além das 19h, que seria o final do meu expediente. No final do ano passado, as notas [fiscais] se multiplicaram, e passei a madrugada trabalhando. Minha chefe já disse que não quer que eu extrapole meus limites, mas se eu não o fizer, não entrego tudo o que preciso”.

Para ela, o maior desafio é se dividir entre o trabalho e a filha de nove meses, que fica aos cuidados da avó durante o expediente. “Ela não pode me ver que quer colo. Paro para amamentar”, conta. No ano passado, ainda ficou sem trabalho por dois meses, porque a empresa suspendeu seu contrato de trabalho.

Para amenizar o cansaço, ela tenta reorganizar a rotina.

“Fiquei com muita indisposição nesse período e precisei estipular metas: acordar mais cedo, fazer um exercício, ler algo, porque a gente já acorda trabalhando”.

Não tem sentido ficar 8h dentro de um prédio todo dia

Técnica administrativa em uma empresa do Rio de Janeiro, Amanda Lume, 36, se declara entusiasta do home office e quer que o modelo continue após a pandemia. Mas reconhece que houve dificuldades nesse primeiro ano.

“O começo foi muito ruim. Eu não tinha condições adequadas para trabalhar em casa, trabalhava no sofá. Sinto dores no ombro e sofro de contraturas”.

Amanda conta que desenvolveu um problema na coluna, agora tratado com fisioterapia.

Três meses depois do início do home office, a empresa disponibilizou um auxílio no valor de R$ 1.000 para compra de equipamentos.

Apesar de estar satisfeita com a rotina, Amanda também diz que trabalha mais horas do que costumava trabalhar no escritório.

“Tem reunião que é marcada no horário de almoço ou quase no final do expediente. Mesmo assim, gosto muito [do home office]. Não tem sentido ficar oito horas dentro de um prédio todo dia, somente para cumprir horário. Hoje, eu faço meu horário. Se um dia trabalhei a mais, no outro comunico que vou começar mais tarde. Faço meu horário em função das demandas”. 

“Qualidade de vida melhorou, mas sinto falta das pessoas”

A analista de comunicação Nicole Bleidorn, 30, trabalha na escola de inglês English Live, em São Paulo, há três anos, um deles em home office.

“O home office foi muito positivo para a minha qualidade de vida, mas sinto falta de ter pessoas ao meu redor no dia a dia, pois trabalhar em casa pode ser muito solitário”. 

Nicole perdeu a mãe em julho de 2019 e conta que a família ainda vivia o luto quando começou a pandemia. Em um momento de fragilidade, diz, precisou se manter afastada do irmão e do pai.

“Por outro lado, agora que não tenho mais que enfrentar o trânsito, tenho mais tempo para mim e para quem divide a vida comigo”.

Nicole diz que a empresa ofereceu uma série de medidas de apoio aos funcionários, como aluguel de computadores e cadeiras para quem não tinha em casa, aulas de dança, culinária e de exercícios respiratórios, happy hour online e dinheiro para a compra de equipamento.

“A gente tinha um benefício para investimento em terapia e massagem. Na pandemia, foi autorizada a compra de materiais com esses valores. Eu, por exemplo, comprei um segundo monitor, para conseguir trabalhar de forma mais confortável, como trabalhava no escritório”.

A empresa também permitiu que os funcionários escolhessem entre o vale-refeição, que era o padrão antes, e o vale-alimentação.

Sem perspectiva de vacinação, fiquei mais aflita

Luana Costa Sampaio Guterres, 30, professora particular de matemática, conta que perdeu alunos com a suspensão das aulas presenciais no início da pandemia. Com isso, a renda familiar encolheu 25%.

A professora e o marido tiveram que transformar sua casa em sala de aula e escritório. A mãe e a sogra de Luana se revezam para ajudar a cuidar da filha do casal, de um ano e meio, durante o expediente.

Mais do que com as perdas financeiras, a professora diz que se preocupou com os alunos. “No início, eu não sabia como seria o desenvolvimento deles e como iriam se adaptar a ter apenas aulas online, tanto na escola quanto comigo”, afirma.

Luana diz que chegou a ganhar novos estudantes com as aulas virtuais, mas que elas exigem mais dedicação.

“Precisam estar mais amarradas para fluir melhor, e você ter a certeza de que o aluno está entendendo a distância”.

O prolongamento da quarentena virou mais um motivo de ansiedade.

“Comecei a sentir ainda mais saudade dos alunos, da família, dos amigos. Conforme o tempo foi passando, e eu fui vendo que a gente não tinha perspectiva de vacinação, fiquei mais aflita”.

Fonte UOL, no Rio – https://economia.uol.com.br/reportagens-especiais/1-ano-de-home-office-funcionarios-aprovam-horarios-flexiveis-mas-reclamam-de-dores-e-expediente-sem-fim/

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